segunda-feira, 7 de março de 2016

Estava A Pedi-las

Olá a todos. Venho por este meio responder a todos os comentários que tenho ouvido em surdina quando estou na rua, que tenho lido nas redes sociais e que a minha família e amigos têm escutado por vários meios. Em breve, vou depôr em julgamento contra aquele que me violou há uns meses atrás. Mas eu sou obrigada a concordar com o que têm dito: sim, a culpa é toda minha. Posso não ser julgada em tribunal, mas eu sou a verdadeira julgada em praça pública - e com toda a razão. Eu estava a pedi-las.

Eu bem que podia argumentar que fui agarrada, completamente desprevenida, por ele à saída do bar, que debati-me com todas as forças para que ele me soltasse (esforço inútil já que ele é era bem maior do que eu, conseguindo facilmente dominar-me, mas ainda assim lutando até ao fim), que lhe implorei que parasse e disse repetidamente "Não", que durante todo este incidente fui brutalmente agredida e que no fim, atirou-me para fora do carro como lixo, que além das marcas da agressão sexual fiquei toda cheia de hematomas dos murros e estaladas que ele me deu. Mas isso são desculpas de mau pagador. Tal como dizem por aí, eu estava a pedi-las. 

Toda a gente sabe que se uma mulher sai à noite é para se exibir, para que os machos a rodeiem e que pelo menos um deles lhe salte em cima. Então, se ela veste uma saia curta, como eu vestia nessa noite, mais vale também andar com um cartaz a dizer "COMAM-ME!". Isso de uma mulher querer, com essa saída, apenas uma noite de diversão e descontraída com as amigas, ou de querer usar saia curta simplesmente para se sentir bonita, é tudo conversa fiada. E quando uma mulher diz não, na verdade ela está a dizer sim, a fazer-se difícil e a adiar o óbvio. Logo, como eu estava de saia curta e ainda por cima um decote que apesar de não muito grande, não subia até ao queixo, eu estava a pedi-las. 

Toda a gente sabe que os homens são uns coitados, têm a carne fraca, não se controlam. Pelos vistos aquilo que eu li sobre a teoria da evolução são umas balelas. É que não podem ver uma mulher a mostrar um pouco de carne, que ficam doidos, incapazes de controlar os seus impulsos, cegos a tudo mais. Mas a culpa não é deles, coitadinhos. É de quem lhes acena com tanta carne pronta a ser devorada e depois faz-lhes negaças. E se eles apanham uma a jeito, que mais pode uma mulher fazer senão ceder e deixar que eles saciem as vontades? Quando ele olhou por mim, tão provocante e lasciva, que podia ele fazer senão fazer-se a mim à bruta? Eu estava a pedi-las.

Toda a gente sabe que uns bons pais não deixam as filhas fazer essas figuras. Ao deixarem-me vestir aquilo que bem me apetecer, sair para onde eu quiser e já agora, pensar por mim própria, está visto que os meus pais não souberam educar-me. Ou então não sabiam a filha desnaturada que tinham em casa. Com uma educação tão defeituosa, eu estava a pedi-las.

Toda a gente sabe que uma boa rapariga não gosta de sexo. Mantém-se pura e casta até ao casamento, é imune a pensamentos lascivos. As outras, as más raparigas, oferecem-se a cada um sempre que podem. Seduzem os coitadinhos dos homens com a sua armadilha inescapável de luxúria. Desviam bons rapazes, são poços de infecções e sarilhos. São umas desvairadas e só servem de receptáculos para as satisfações momentâneas dos machos. Não há meio-termo entre umas e outras. Não foi por amor ou por desejo de intimidade e afecto que tive sexo ao longo da minha vida, foi porque sou uma tarada ninfomaníaca que não se dá ao respeito. Bem que podia dizer que foi só durante as três relações de namoro, todas elas relativamente longas e apenas quando a relação já estava minimamente sólida, mas toda a gente, que sabe mais da minha vida do que eu própria, afirma que foram mais que isso, que sempre me viram agarrada a este e aqueloutro. Logo, eu estava a pedi-las.    

Toda a gente sabe que eu afinal queria e como não foi como pretendia, estou agora a fazer-me de vítima. Aliás, ele até nem fez nada, eu é que me fiz a ele. Toda a gente o conhece, é tão bom rapaz, de boas famílias, seria lá ele capaz de uma barbaridade dessas. Só posso ser eu que estou ressabiada por ele não me ter dado trela e agora resolvi estragar a vida ao rapaz, coitado. Se a minha vida já está estragada, se vou ter de carregar as marcas exteriores e interiores daquilo que sofri, se eu vou passar o resto da vida com medo de tudo e de todos, pouco importa. Eu estava a pedi-las.  

Dadas as provas das minhas marcas e do ADN dele, as testemunhas que o viram a arrastar-me à força ou a ser cuspida para fora do carro dele mais morta que viva e as fracas justificações dele, em princípio ele será condenado pela justiça. Mas mesmo que se faça justiça em tribunal, não consigo sentir que a verdadeira justiça será feita. Não enquanto eu me sentir como a verdadeira condenada e culpada. Não enquanto pensarem que, mesmo contra as evidências mais evidentes, eu estava a pedi-las.      

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Sem Segredo

Vanessa

Perguntas tu e pergunta muita gente qual é o meu segredo para manter um relação tão apaixonada com o Sérgio ao fim de dez anos de casamento, tendo os dois trabalhos tão exigentes e dois filhos que ainda requerem tanto da nossa atenção. A verdade é que eu não sei. A sério.
É que são muitas as vezes que caímos redondos na cama sem vontade para mais nada senão dormir. Tantas vezes que andamos num turbilhão de preocupações, ele é um dos miúdos que adoece, ele é algum pagamento que ficou em atraso, ele é a roupa que fica por passar, ele é um risco num dos carros e parece que andamos sempre nisto de problemas em problemas que nem dá para trocarmos meia dúzia de palavras como deve ser.
Para além disso, há aqueles momentos de tédio e de tensão, em que um de nós diz ou faz algo que deixa o outro irritado sem que não se possa dizer nada até lhe passar o amuo. Ou então acontece nos apetece estar cada um na esfera pessoal sem ter o outro por perto, ou pura e simplesmente não nos apetece rigorosamente nada.
E depois é como alguém disse, "viver é escolher um de mil caminhos e pensar como seriam os outros 999". Como sabes, pensei muito no César nas semanas a seguir ao nosso jantar de reunião de turma e nem sempre da forma mais ingénua. Tal como sei que o Sérgio repara e aprecia as atenções de outras mulheres no seu dia-a-dia e que já terá tido os seus pensamentos libidinosos envolvendo outras mulheres além de mim. Ou simplesmente, ocorre-nos pensar se fizemos as melhores escolhas possíveis. Por muita convicção e determinação que uma pessoa tenha em se comprometer com alguém para, pressupõe-se, o resto da vida, a ideia de que essa mesma pessoa ficará ao nosso lado até que a morte nos separe é assustadora. Até porque ao longo do tempo, vamos mudando e transformando. Eu já não sou aquela que há dez anos marchou até ao altar da igreja, tal como o Sérgio de então é bastante diferente do Sérgio de agora. 
Gosto de pensar que são as pequeninas coisas que engrandecem e mantêm a nossa união viva e forte ao fim deste tempo todo: os breves períodos de tranquilidade entre fases turbulentas, as palavras certas ditas nos momentos certos, os pequenos gestos que escondem grande valor, os inesperados ataques de desejo que surgem do nada, os rasgos de humor e ternura dos miúdos que nos enche de orgulho, os subtis actos de compreensão.
Mas pode ser que temos é muita sorte e ainda não houve nada que tenha feito ruir os alicerces daquilo que construímos juntos. Infelizmente a vida é cheia de terramotos que abalam até as mais sólidas das fundações e de um momento para o outro, tudo o que acreditamos e temos como seguro desvanece (como aconteceu com a Carina). 
Eu sei bem porque perguntas isso. Já passou a fase de lua-de-mel com o Daniel, onde andavas numa de comédia romântica com laivos de filme erótico. Os pequenos desencantos dele já não se deixam camuflar pelos seus grandes encantos, e mesmo que isso não te faça gostar menos dele, também sabes que é algo que vais ter de lidar. E perguntas-te a ti mesma, se vale a pena dar passos em frente, arriscando a ficares sem chão, enquanto te apercebes que já não dá para recuar para os trilhos que antes pisavas com toda a segurança. 
Tantas perguntas sem resposta, mas não possa ser eu a dá-las. Tomara eu saber a resposta para as minhas. Talvez o segredo seja não haver segredo. Talvez as coisas sejam aquilo que temos à frente, sem nenhum truque escondido e tudo o que achamos complicado afinal é do mais simples que há. Não acontece tanta vez andarmos às voltas à procura de algo que sempre esteve no ponto de partida?
Por isso, se não sabes por onde caminhar, deixa o mundo girar para veres onde ele te transporta.

Joana      
 

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Scrooge Apaixonado

Raios partam o Natal. Como é que possível que algo que eu adorava em miúdo pareça-me tão insuportável aos 30 anos? É que eu não tenho pachorra para tanto Jingle Bells, tanta decoração foleira, tanto puto ranhoso a pedinchar brinquedos que provavelmente não vão ligar nenhuma depois, tanta comida para empanturrar, tantas mensagens vazias e hipócritas. Será que as coisas eram mesmo mais simples quando eu era criança ou será que fiquei mais cínico com idade?

Mas pelo menos para minha mãe, faço um esforço nesta noite de Consoada. Para ela, qualquer ocasião para reunir a família toda é importante, ainda para mais desde que o meu pai morreu há três anos. Por isso, faço o possível para pôr cara alegre e entrar no espírito. Nem que seja pelo faz-de-conta. Por exemplo, faço de conta que sempre adorei as frutas cristalizadas no bolo-rei.
Faço de conta que não ouvi o meu cunhado num canto a falar ao telemóvel com uma tal de Isabel que provavelmente anda enrolado e a minha irmã faz de conta que o marido dela não pula a cerca. Faço de conta de que não acho que ele é um estupor por enganá-la quando não tem nenhuma razão de queixa dela.
Faço de conta que a minha cunhada não se tornou uma mulher seca e chata e que a essa sim, acharia algo justificável uma ou outra facadinha que, felizmente ou não, o meu irmão não se atreve a dar. Faço de conta que os meus sobrinhos ainda não passaram a fase de estarem apenas um pouco irrequietos e já se aproximam perigosamente da zona do insuportável. Até a Carolina, com quem sempre tive uma particular proximidade e normalmente tão sossegada, anda feita uma barata tonta a correr de um lado para o outro com o irmão e os primos. Deve ser do sugar rush das azevias e dos chocolates.Faço de conta que a minha mãe não sente imenso a falta do meu pai em todos os momentos, especialmente nestes. 
E sobretudo faço de conta que eu não ando de cinco em cinco minutos a ver se tu enviaste-me uma mensagem para o telemóvel. Bem sei que não fizemos planos nenhuns, que cada um já tinha planeado passar a Consoada com a respectiva família, que ainda não chamamos namoro àquilo que se passa entre nós. Mas volta e meia dou comigo a pensar em ti, em como o meu Natal ideal era ter-te ao meu lado e o resto que se lixe. Mas no meu telemóvel só chegam mensagens formatadas a desejar Feliz Natal e tudo o mais.

Até que de repente ouço o toque de mensagem. "Feliz Natal. Quando puderes, vem cá..." Seis palavrinhas que, qual milagre de Natal, mudam o meu estado de espírito. Faço tudo para não o mostrar mas o olhar sorridente que a minha mãe me lança mal eu te envio a resposta demonstra que ela reparou, como sempre reparou em tudo. 
E de repente, tudo muda. Já sou todo sorrisos. Dou um beijo à minha irmã, imito o Chewbacca para os miúdos, alinho num ginjinha com o meu irmão e o meu cunhado, até arranco um hesitante sorriso à minha cunhada. Quando chega a troca de prendas, vou agradecendo os packs de meias, os frascos do after-shave e o vale do iTunes. Sentada ao meu colo, a Carolina desembrulha a caixinha de jóias da Violetta que ela me pediu e rodeia-me o pescoço para me dar um beijinho repenicado. Se ainda existe algum stress e tensão, já não o sinto. 

Quando conduzo pela noite fria, até acho piada às iluminações da cidade, as mesmas desde sei lá quanto tempo. Subo as escadas do teu prédio como um miúdo ansioso por abrir as prendas. Quando me abres a porta e recebes-me com aquele sorriso que me enfeitiçou, sei que ainda é possível inventar um Natal simples, onde basta ter aquela de quem se gosta ao nosso lado, e o cinismo e o faz-de-conta ficam lá fora, no frio invernal. Só mesmo tu para, com um simples SMS, trazeres o espírito de Natal a este Scrooge empedernido que se apaixonou por ti.       

sábado, 14 de novembro de 2015

K2

Nunca o dissemos abertamente, mas tanto eu como o Fábio sempre achámos um alívio não sermos gémeos idênticos. Já bastava termos que partilhar tanta coisa, mesmo ainda antes de virmos ao mundo, que seria exasperante para nós ter que ver a nossa cara reflectida no outro e sermos vistos como se um fosse o original e outro a cópia, ou pior ainda, como um só. Como naquela anedota em que um pai mostrava uma foto só de um dos filhos gémeos porque e não via porque mostrar também o outro sendo eles iguais. Felizmente a armadilha da genética foi-nos piedosa, apenas com os traços fisionómicos suficientes para que se visse que éramos irmãos um do outro e filhos dos nossos pais. E como se quiséssemos provar desde o parto que viemos juntos mas não misturados, fizemos sempre por reclamar a nossa individualidade. Como tal, era fácil para toda a gente saber desde muito cedo quem era o Bruno e quem era o Fábio. E tem sido assim ao longos dos vinte e sete anos que já vivemos. 

O Fábio foi sempre a alma da festa, a voz da vontade, o conversador inato enquanto eu sempre preferi-me perder na profundeza dos meus pensamentos ou no conforto dos números. Claro que tivemos essas nossas brigas, mas não foram mais de que as de quaisquer outros irmãos. Na maioria das vezes a nossa divergência de personalidades acabava por ser bastante harmoniosa e complementar. Que o diga o nosso pai que percebeu que com o meu irmão a dar conversa aos clientes e eu nos bastidores a ver se as letras e os números batem certo, o negócio de família estava bem entregue nas nossas mãos.  

Quando o Fábio desafiou-me para a canoagem, o desporto em que ele assentou depois de tentar muitos outros, aceitei algo contrariado. Mas não tardei a perceber que estando no meio da natureza, em harmonia com os elementos, era o desporto ideal para a minha natureza tão filosófica. Na cadência da pagaia, na fluência das águas, nas asas do vento, os meus esforços acabavam por sair-me com uma inesperada facilidade, por vezes até superando o Fábio. 
Mas foi quando nos propuseram juntar forças para o K2, é que os resultados começaram mesmo a aparecer a um ritmo surpreendente até para nós. Tudo bem que estamos longe de ser o Emanuel Silva e o Fernando Pimenta, mas não é a glória olímpica que nos move, mas sim a alegria do esforço e da auto-superação, o contacto da natureza e o reforçar daquele sensação de, por entre as nossas muitas diferenças, sermos desde o primeiro momento companheiros nessa viagem que é a vida. Apesar de apenas muito de vez em quando sentirmos aquela telepatia que dizem que é característica dos gémeos, existe entre nós uma compreensão e uma aceitação mútua que se expressa para além das palavras. É um laço que nos une foi sempre mais forte e mais nítido do que qualquer outra coisa que possamos sentir.  
    

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Lua Nova

Eis-me aqui, parada junto ao semáforo, tamborilando os dedos no volante, à espera que acenda a luz verde. São duas da manhã, a rua está deserta, circulo sozinha pela cidade. Então vem-me à cabeça um cenário de transgressão: e se eu cruzasse este sinal vermelho, protegida pela solidão desta rua? Como estamos na Lua Nova, nem sequer a Lua seria testemunha. E aquelas estrelas que aproveitam a ausência de luar para povilhar o seu brilho no firmamento estão longe demais para me avistarem cá de baixo. A minha mão desce até ao manípulo das mudanças, o meu pé já sente a urgência de carregar no acelerador.
A luz verde acaba por surgir no preciso instante antes de ceder ao meu impulso final. Em vez de um arranque vertiginoso sob o chiar dos pneus e o zunido do motor, avanço sem pressa pela via, seguindo o meu caminho.

Creio que a primeira vez que senti este desejo transgressor quando tinha cinco anos e imaginava-me a empurrar o gato malhado da minha avó que dormia descansado num novelo de si próprio num degrau das escadas. Quase que podia sentir as minhas mãozinhas sobre o seu volumoso pêlo a pressioná-lo para fora do degrau, o bichano a despertar estremunhado num grito assustado e a fugir num voo picado escada abaixo. Depois seguiram-se outros cenários realizados na minha mente, onde calcava um relvado junto do sinal “Não pise a relva”, largava um grito em plena biblioteca, desatava-me a rir no meio de uma missa, puxava o cabelo de uma antipática colega da escola, pegava num sabonete no supermercado e atirava-o contra a prateleira das lacas para o cabelo e por aí fora. Claro que nunca fiz nada disso. Primeiro porque faltava-me sempre a coragem para pisar de vez o risco, e depois porque a imaginação do acto já me dava pica suficiente, provavelmente mais do que obteria com a realização. Quando uma vez confessei isto à minha mãe, ela concluiu que era uma partida do meu subconsciente. Seria precisamente por eu ser tão bem comportada que me sentia fascinada com maus comportamentos. E no fim, ela sossegou-me, afirmando:
- É normal ter vontade de ser mau. Fazer maldades é que já não é normal.

De facto fui sempre uma menina bem comportada. Obedecia sem grandes protestos às ordens dos meus pais, mantinha o meu quarto arrumado, era disciplinada e atenta nas escolas, nunca chegava das saídas à noite depois da hora combinada, nunca bebi álcool para além da conta, nem sequer nunca fumei um cigarro inteiro. Mas nesse caso, também não tenho interesse nisso, detesto o cheiro a tabaco. Até acho pior que o cheiro da ganza. E aliás, a única vez que fumei ganza foi em Amesterdão, pelo que posso seguramente afirmar nunca fiz nada de ilegal.
Vistas bem as coisas, a minha mãe tinha razão. Agradava-me mais a ideia de me portar mal do que propriamente o acto. E qualquer pedrada de adrenalina que pudesse obter se o fizesse não compensaria certamente as consequências que teria de enfrentar.
No entanto, agora enquanto conduzo pelas ruas desta cidade, não consigo deixar de pensar que pisei o risco e que tenho de me aguentar à bronca. A bem dizer, não houve nenhum risco para pisar. Foi sexo consentido entre dois adultos oficialmente desimpedidos. Mas a frieza das palavras não se encontra no labirinto dos sentimentos. E o que sinto é que traí o Fernando, ao voltar-me a entregar de novo ao Gustavo.

O Gustavo continuava igual a si próprio: sedutor, descontraído, convidativo, aplicado. Desta vez tinha regressado a Portugal como membro da banda que acompanha uma cantora de jazz holandesa na sua digressão europeia e claro que não perdeu a oportunidade de voltar a ligar-me, para de mais uma vez nos encontrarmos e matarmos saudades dos corpos um do outro, como temos feito a espaços durante o último ano e meio. Lançava-me de novo o seu canto de sereio, na sua voz grave e calma e mais uma vez atordoava-me os sentidos e ateava o fogo dos meus desejos de mulher, deixando-me incapaz de dizer não.
Porém, desta vez já havia o Fernando e o meu sim não foi tão imediato. Fui enganando uma eventual culpa com a racionalização. Eu ainda não namoro com o Fernando. Quando muito, andamos a ver se andamos a namorar. Se dependesse só dele, já teríamos relação oficial mas ele tem sabido esperar que eu resolva o puzzle da minha cabeça e que tome uma atitude, ciente que já não é para mim apenas um amigo e certo que não tardará a sair da minha friendzone para o nível seguinte.

Como sempre, bastou uma porta fechada e estarmos sozinhos entre quatro paredes para que o Gustavo e eu nos agarrássemos, como se entre nós irradiassem todas as ondas magnéticas reconhecidas pela Física. As roupas caíram à pressa, as peles sedentas de contacto, as bocas sequiosas do licor salival, as mãos esvoaçando por entre as curvas e contracurvas dos músculos, os sexos roçando-se em fúria.
Como sempre, o Gustavo foi magnífico no seu desempenho, com o seu toque a deixar cada centímetro da mulher que sou em brasa. A responder às minhas ânsias, a celebrar-me com beijos, a dominar-me com o seu belo corpo, a impor-me o seu ritmo vertiginoso, a rasgar-me bem fundo, a garantir-me que os orgasmos seriam alucinantes.
Como sempre, respondi na mesma forma, deixando-o desvairado para além da razão, sem outro pensamento senão em possuir-me, inebriado no meu cheiro e sabor de mulher. Provocando-o com os meus dentes cerrados e as minhas unhas afiadas. Zunindo-o com os meus gemidos de prazer rumo ao clímax. Movendo-me para que ele sentisse todos os estremecimentos do meu ventre. Desdobrando-me entre a amante exigente e a amante submissa, obrigando-o a efectuar a soma das partes.
Como sempre, ele foi perfeito, o sexo foi além de fantástico.

Só que desta vez, assim que a euforia desapareceu no éter da noite pelo céu da Lua Nova, e os corpos saboreavam a doce trégua depois da violência do prazer, tudo ficou diferente. A saudade que eu tinha deste meu amante e do seu corpo foram aniquiladas por outra saudade.
Uma saudade que vinha agora do coração e que me levava a outro corpo, a outro amante. A um outro amado.
- O que tens, Luísa? – perguntou o Gustavo.
Tentei dizer alguma coisa mas só me apetecia chorar e não consegui evitar que uma lágrima se condensasse no meu rosto. Com a sua habitual perspicácia, percebeu que eu não estava bem mas nada disse. Passou apenas a mão pela face, limpando-me a lágrima. Depois pegou no trompete e, ainda nu, tocou-me um excerto de uma música que tinha ouvido antes no concerto. Recordei a canção que a cantora cantou no concerto.

Whisper to the moon, my heart pleads for you.

Sentei-me na cama, desfiz o nó da garganta.
- O Fernando ama-me.
Ele parou de tocar e sorriu para mim.
- O Fernando tem bom gosto.


Assim que senti a brisa da noite, olhei para o céu sem lua, mas cheio de estrelas. De certa maneira, creio que amei o Gustavo. Não pela atracção animal que ele me inspirou, pelos prazeres que ele me fez descobrir, nem sequer pelo bom entendimento que soubemos cultivar fora da insanidade carnal. Amei-o com a ternura de alguém que foi importante para nós e que nos pintou um novo matiz da vida. No caso dele, talvez a luz branca do luar. Mas a rotação da vida é constante e só agora percebi que estava agora na órbita de um novo ciclo. Peguei no meu carro e voei no reflexo celestial do alcatrão. Se eu pisei algum risco, só tenho é que seguir em frente.  

Filho De Ninguém

Já faz dois meses que eu e a Marisa decidimos acrescentar benefícios à nossa amizade. Encontramo-nos pelo menos uma vez por semana. Toda esta situação tem tanto de estranho como de excitante.
Estranho porque quando me envolvo com alguém, gosto de conhecer as histórias dela, o que ela passou, dessa descoberta gradual. Mas eu conheço a Marisa desde que ela ainda usava fraldas e eu não passava de um cachopito. Crescemos juntos e temos todo um passado comum de amizade e de conhecimento. Ela sabe toda a minha história e eu sei a dela. Até dos detalhes mais íntimos como quando ela se enrolou com um italiano em Ibiza na viagem de final de curso. E embora por vezes indagasse como seria ter uma coisinha tão bela na cama, nunca me tinha atrevido a tal pois sempre prezei a amizade dela, tanto como a dos outros. E sempre gostei de ter uma miúda porreira como ela como amiga, apreciava a perspectiva feminina dela nas conversas e a sua mente aberta (infelizmente muitas gajas são mais tacanhas do que querem admitir). Era bom partilhar ter este tipo de convivência sem o sexo ser para ali chamado. Até agora.
E excitante porque agora que pisámos o risco, a experiência tem sido fascinante em todos os aspectos. E a nossa familiaridade acaba por fazer parte do jogo, antes e depois. No durante, basta despir a pele de amigos e vestir a de amantes. O sexo não é bruto nem demasiado delicado ou refinado. Acaba por ser algo bastante natural, um gozo mútuo, sem pressas nem preâmbulos. Como se o clímax não fosse o objectivo, mas sim parte do processo. É algo de adulto, esclarecido mas ao mesmo tempo, intenso e poderoso, e também divertido. A nossa relação de amizade acaba por ser uma zona de conforto, como se fosse a rede de um trapézio. Mas eu sei como no sexo por vezes é fácil perder a pega do trapézio e enfrentar o abismo.

A única coisa que me preocupa é se isto continua por mais algum tempo, ainda me meto numa alhada. Eu sei bem que as mulheres, mesmo as mais esclarecidas nestes assuntos, muitas vezes não resistem em urdir uma teia de afectos, tentando capturar o amante na armadilha do amor. Foi o que algumas tentaram e sempre fui-me safando airosamente. Se continuamos nisto, a Marisa ainda pode um dia pensar que a nossa relação pode ir ainda mais além do que nós temos, por muito que ela ache que não e aí vai ser um sarilho. Até já pensei em acabar com isto. 
Mas não o faço. Sei lá, talvez esteja a amolecer. Talvez não queira ainda abrir mão deste doce aconchego, do corpo feminino e adorável dela junto ao meu, deste engraçado jogo de sedução, desta nova descoberta.
E a verdade é que apesar de fugir às armadilhas do amor, não quer dizer que quero fugir para sempre. Nunca disse isto a ninguém mas sempre tive uma pontinha de inveja do que o Sérgio teve com a Diana. Pergunto-me como seria ter vivido um amor assim, tão intenso, sem reservas, mais forte que tudo. Não admira que tenha custado tanto ao Sérgio ter de continuar a viver sem ela.       

Mas se aspiro a esse amor, também o receio porque sei como pode ser destructivo. Por amor ao meu pai, a minha mãe deixou tudo e todos e mergulhou com ele na espiral da droga e da miséria. Amparou toda a porrada que ele lhe dava, ébrio ou sóbrio. Diz quem sabia que também tinham momentos felizes, de paixão e união total. Que não podiam viver um sem o outro, que eram super apaixonados, uma versão portuguesa e rústica do Sid Vicious e da Nancy Spugeon.
Mas não me lembro disso. Só me lembro dos gritos, do sangue e do cheiro a podridão. E o mito Sid & Nancy está demasiado romantizado: ele não a matou durante uma pedrada de heroína? Neste caso, foi a Nancy que matou o Sid. Era um ou o outro, lutando por uma navalha.
Ao menos, estou-lhe grato por ter-me deixado com a tia Luísa antes do confronto final. É o seu único acto de amor que recordo. E do meu pai não me lembro de nenhum, embora digam que sim, que gostava de mim, quando estava minimamente sóbrio.
A tia Luísa e o tio Alfredo foram mais que uns pais para mim e sempre vi o Hugo como um irmão. Graças a eles, o meu destino trágico reverteu-se e tive a oportunidade de crescer num ambiente limpo e estável. Fui e sou feliz.
No entanto, sempre me senti que não devia estar neste mundo, que fui um percalço, um filho de ninguém. Sobretudo depois da minha mãe morrer na prisão. Por isso, é que tenho esta raiva dentro de mim. Por isso, quis sempre provar o que valho, que sou capaz, que nenhum desafio é demais para mim. Por isso, é que sempre fui tão competitivo, na escola, no trabalho, até nos jogos a feijões. E nos jogos de sedução. Eram formas de ser validado. No fundo, ando sempre à procura da aprovação, embora me faça de forte e diga que não preciso de ninguém. Parece uma contradição, mas no fundo todos nós somos um poço de contradições.

O melhor que tenho a fazer, se calhar, é não pensar muito nisto. Seja feita a vossa vontade, que será, será, carpe diem e et cetera e tal. Não vale a pena andar a remoer em dúvidas, bem basta termos que sofrer com as certezas, como diz a tia Luísa. Neste momento, estou bem assim como estou, com estes novos benefícios na minha amizade com a Marisa está muito bem assim e se der mal, logo se vê. É aproveitar enquanto dura. Ou “enquanto duro”, como dizia o Vinícius de Moraes, que era cá dos meus.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Nas Nossas Mãos

Joana

Este foi o primeiro Verão que a Inês passou férias diferentes com cada um dos pais. Eu temia a princípio que fosse demasiado confuso para ela, mas qual quê, para ela estava tudo perfeitamente claro, nós é que estávamos a complicar as coisas e a esquecermos de como ela é bem mais esperta do que aquilo que julgamos. Aliás, ao longo de todo o processo da separação, a Inês percebeu sempre tudo - até aquilo que eu e o David achámos que ela era nova demais para perceber - e tem-se adaptado bem à nova vida comigo num lado e com o pai no outro. 
Não é que estivéssemos em competição, mas sabia que ir à Disneylândia de Paris com o pai era imbatível, por isso decidi optar pela simplicidade para as nossas duas semanas fora da cidade. Descobri esta adorável casinha no concelho de Ferreira do Zêzere que além de ter piscina, fica perto de uma praia fluvial e aproveitando o sossego e a frescura do local, iríamos entregar-nos ao mais completo dolce far niente, limitando limpezas e tudo mais ao mínimo essencial. A Inês adorou e eu ainda mais. Por entre nadar na piscina e na praia (com sete anos, ela já nada melhor do que eu nadava aos doze), ver DVDs da Disney e da Violetta, sentar-me na rede a ler um livro enquanto ela se entretinha a jogar no tablet ou a colorir livros e comermos coisas simples e fáceis de preparar, parecia que tínhamos entrado num universo paralelo, onde não havia horários, regras a cumprir, avaliações a respeitar. A certa altura, dei comigo no carro a cantar com a Inês canções da Violetta a plenos pulmões na figura mais tola possível mas sem qualquer medo de o parecer. Acho que nunca na vida me senti tão liberta das inibições que sempre dominaram a minha vida.

Mas cada vez mais me convenço que existe uma nova Carina, mais liberta e senhora do seu nariz, menos permeável à opinião dos outros. Com o fim do meu casamento, tantas vezes que duvidei se conseguiria sobreviver e afinal de certa forma, sinto que só agora comecei a viver a sério. Claro que até então tive muitos momentos felizes ao longo da vida, inclusivamente ao lado do David. Mas sem dúvida que há outro sabor em viver a vida caminhando pelo nosso pé, cada conquista feita de enorme esforço e até alguma frustração mas intensamente vivida, sem regermos por regras que não as nossas e termos de dar satisfações a ninguém. O David nunca me apontou nenhuma falha na lida da casa mas sei que, talvez até conscientemente, havia de coisas que ele esperava que eu cumprisse e sobretudo eu própria sentia que se eu não correspondesse a um certo padrão estava a fracassar. Foi preciso passar por tudo isto para descobrir que o mundo não parava se não lavasse a loiça após o jantar. E que ir onde quisermos sem prestar contas ou fazer programas a sós, como ir ao cinema, pode ser algo estimulante e nada solitário. Até porque sei bem como é sentir-me solitária no meio de tanta gente.

Por essas e por outros é que compreendo a relutância da Vanessa em avançar as coisas com o Daniel. Tudo bem que ele é um tipo cinco estrelas, que tenho a melhor ideia dele, mas também já sei entender a satisfação que a Vanessa tem de ter sido independente e de tudo aquilo que ela conseguiu por si mesma. Para alguém como ela, será  difícil encarar uma vida em que se terá de reger em grande parte por aquilo que esperamos de outra pessoa e que o outro espera de nós, com todos os benefícios e desvantagens que isso traz. Apesar de eu pensar que muito dos receios dela quanto a isso são mais complicações sem nexo na cabeça dela que de outra coisa, os tais aranhões de que ela costuma falar.

Eu não ponho de todo a parte de um dia refazer a minha vida com outra pessoa, mas acho cada vez mais absurda essa ideia tão incrustada na nossa sociedade que a vida só faz sentido com alguém ao nosso lado. Por isso é que tantas e tantas mulheres sujeitam-se a tudo para não estar sozinhas, como se esse fosse o horror absoluto e o maior fracasso como mulher. A minha mãe volta e meia diz-me isso de forma algo velada mas eu já nem a ouço. Talvez outrora eu pensasse assim também, mas agora que percebi que o meu mundo continuou a girar quando fiquei por minha conta, já não vejo nenhuma razão de ser nisso. Claro que a ajuda - financeira e não só - do David para a Inês é ainda muito importante, mas ano e meio depois após o meu divórcio estou orgulhosa daquilo que tenho alcançado: gosto do meu trabalho na imobiliária, tenho gerido as minhas finanças e as minhas responsabilidades de forma hábil, sinto que faço a minha filha feliz, reatei a amizade contigo e com a Vanessa e tenho agora uma sensação de liberdade, pela qual paguei um duro preço, mas que me traz bastante paz e satisfação. E não há nada que pague o sentimento de que felicidade está nas nossas mãos, com ou sem alguém do nosso lado.

Carina