quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Noite de Açucenas

Era mais uma noite de sexta-feira no mesmo bar de karaoke onde descobri há cerca de um ano que brilhar no karaoke é mais pela atitude do que pela afinação. E sendo minimamente afinado e alcançando uma inesperada autoconfiança que estilhaçava a minha timidez aos primeiros acordes polifónicos da música, dei por mim a fazer sucesso junto do sexo oposto como nunca alguma vez pensei ter. Nas outras noites sou eu mesmo, mas às sextas-feiras sou este alter-ego misto de rei do palco e mestre do engate.
Mas naquela noite o seduzido fui eu. A princípio ainda revirei os olhos a pensar, mais uma a cantar o "Chamar A Música". Mas assim que a ouvi a voz dela, dizendo que esta noite ela iria ficar prisioneira desse olhar, fiquei hipnotizado. No palco, ela chilreava num simples mas sensual vestido branco. Aproximei-me dela e quando ela olhou para mim, bebi o licor como filtro redentor de amor e o chá feito de aromas que não há. E quando ela terminou a olhar para mim, a noite já era de açucenas. Tudo o queria era abraçar-lhe apenas e chamar a música.
Fui ter com ela, ofereci-lhe uma bebida, a conversa foi fluindo. Era de Barcelos, estava cá há dois meses e ainda não conhecia este bar. Sim, por vezes ia lá aos karaokes de Barcelos e arredores, gosta muito de cantar embora nunca tivesse pretensões de ser uma estrela. Pelo menos, além do karaoke.

Nessa noite, eu pretendia recorrer a uma das minhas canções para brilhar, o "Last Kiss" dos Pearl Jam, raspando a minha voz um pouco para ficar parecida com o Eddie Vedder e pôr toda a gente a entoar o "whoooooa" no final. Mas com ela aqui, decidi mudar de canção e troquei o sal do Eddie Vedder pelo gengibre de Ed Sheeran em "Give Me Love". O meu sangue não estava transformado em álcool (até porque raramente bebo mais que a conta) mas cantei-lhe para que ela me desse amor e que tudo o que queria era o sabor que os seus lábios permitissem. Claro que mesmo cantando para ela, não esqueci o resto da audiência e puxei por eles para os "my, my, my" da recta final da canção. Quando desci, já sabia que também ela estava conquistada pela minha magia karokeana e depois só havia uma coisa a fazer. Escaparmo-nos para um sítio mais privado, darmos largas à súbita atracção germinada em cantigas e fazer amor. Com as nossas vozes. 
Foi o que fizemos no resto daquela noite de sexta-feira e nas três noites seguintes, numa das salas privadas do bar onde de microfone em punho, unimos as vozes em orgásmicos duetos. Ela foi Sara Tavares, Sofia Lisboa, Rita Guerra, Kylie Minogue, Tami Tarrell e Bonnie Tyler e eu os seus respectivos Nuno Guerreiro, David Fonseca, Beto, Jason Donovan, Marvin Gaye e Rory Dodd. Até que chegou a noite em que em vez das vozes, os nossos corpos tocaram os acordes na mais perfeita sinfonia amorosa. 

Porém quando a manhã de sábado chegou eu já não era aquele alter-ego carismático e conquistador, apenas o meu verdadeiro eu. E com medo de que ela não gostasse do meu eu despido de coragem e magnetismo vocal, dei corda aos sapatos da minha cobardia e fui-me embora enquanto ela ainda dormia sem lhe dizer adeus. 
Só regressei aquele bar de karaoke dois meses mais tarde. Certifiquei-me que era o primeiro entrar logo à hora de abertura, aluguei uma sala privada e entreguei-me a uma parada de canções tristes. Mas as lágrimas só caíram quando terminei a minha via sacra vocal com o "Chamar a Música". Por fim, paguei a hora passada na reclusão e saí ainda com os olhos vermelhos de choro. Mas ainda não tinha dado dois passos, dei de caras com ela. Era o golpe final, ver-me tão desfeito, tão diferente daquele cantor com quem vivera a mais bela das harmonias. Ficámos imóveis a olhar um para o outro, até que ela chegou-se ao pé de mim e cantou-me quase num sussurro:
"My, my, my, my, oh give me love..." 





   

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Eva de Natal

Minha querida irmã Eva

Este é o teu primeiro Natal. Infelizmente também será provavelmente o teu último, mas não quero pensar nisso agora. Estás aqui connosco e isso faz deste Natal o melhor dos onze Natais que já vivi. E fico feliz por ser possível viveres pelo menos um. 

É que desde que a tua mãe ficou grávida, os médicos disseram que tu tinhas um problema tão grave (trissomia 18) que podias nem sequer nascer viva, ou então que só viverias algumas horas. Mas dentro do teu corpinho tão pequenino e frágil estava uma menina muito valente determinada a viver o maior tempo possível. Até agora são 28 dias. Mesmo com tantos tubos para respirares e seres alimentada, fazes questão de viver o máximo tempo possível. E desde o dia 27 de Novembro que tens sido a nossa prenda de Natal e continuarás a sê-lo muito depois deste Natal. 

Não sei se já reparaste mas somos as duas filhas do mesmo pai, mas de mãe diferentes: a minha chama-se Rita e a tua Margarida. Tal como a tua mãe Margarida é também a mãe do Duarte mas o pai dele não é o nosso. Ao que parece, os teus pais namoraram quando eram mais novos, mas depois cada um seguiu o seu caminho, o nosso pai casou com a minha mãe Rita, a tua mãe casou com o pai do Duarte, separaram-se deles, voltaram a encontrar-se e foi como se o amor que eles tiveram em adolescentes regressasse em força com eles já bem crescidos. Por isso é que apesar de todos os problemas e até a sugestão de alguns médicos em não prosseguir a gravidez, para a Margarida nunca houve dúvidas: tu eras uma prova viva do amor deles e, fosse por quanto tempo fosse, ficarias connosco. 

Claro que hoje estamos todos muito bem, mas ao início foi muito difícil. Embora compreendesse que os meus pais não eram felizes juntos e apesar de eu ter gostado logo da Margarida, custou-me muito ver outra pessoa no lugar que sempre vi como sendo da minha mãe. Para o Duarte foi ainda mais complicado e demorou muito tempo a aceitar a separação dos pais e mais ainda que de repente teria de dividir as atenções da mãe com um homem que não o pai dele e com uma irmã que ele mal conhecia. Berrou, esperneou, portava-se mal com o meu pai, discutia comigo e chegou a bater-me. Mas com muita paciência por parte da Margarida e do nosso pai, as coisas foram lentamente avançando, todos nós habituámo-nos a esta nova realidade e hoje em dia eu e o Duarte somos mais unidos que muitos irmãos do mesmo sangue. E claro, tal como para os teus pais, para mim e para o Duarte não há nada mais precioso do que tu. 

Podes não ver muito bem a árvore de Natal que está na sala, não poder comer os doces que estão na mesa, não perceber que têm chegado muitas prendas para ti, mas espero que tenhas de alguma forma entendido que esta noite e este dia são diferentes de todos os outros do ano. Mesmo que seja para ti mais um dia de luta para viveres cada vez só um pouco mais. E espero que saibas que o nosso Natal é muito mais feliz por te termos aqui ao pé de nós. 

O teu avô Manuel disse há pouco que tu eras a nova "Eva de Natal" e explicou-me que no tempo dos nossos pais, havia uma revista chamada Eva cuja edição de Natal vendia-se muito todos os anos porque dava prémios por essa altura. Eu nunca vi essa revista pois acabou vários anos antes de eu nascer, mas os meus pais e a Margarida lembram-se bem dela. Pois este Natal, temos cá uma Eva que não é uma revista mas sim uma linda menina com pouco menos de três quilos que nos dá o prémio de viver há 28 dias connosco neste mundo.

Entristece-me tanto pensar que talvez não te restarão muito mais dias connosco, que não viverás para poderes crescer, falar, andar e brincar comigo e com o Duarte. Por isso não tenho dormido muito nestes dias, quero apanhar cada momento deste Natal contigo para trazer sempre este Natal no coração. Nem eu, nem a Margarida, nem o Duarte nem o nosso pai trocaria os últimos 28 dias mais aqueles que Deus ainda te vai dar aqui connosco por viver cem anos sem ti. E pelo menos nos nossos corações viverás para sempre. 

Feliz Natal, Eva. 

segunda-feira, 7 de março de 2016

Estava A Pedi-las

Olá a todos. Venho por este meio responder a todos os comentários que tenho ouvido em surdina quando estou na rua, que tenho lido nas redes sociais e que a minha família e amigos têm escutado por vários meios. Em breve, vou depôr em julgamento contra aquele que me violou há uns meses atrás. Mas eu sou obrigada a concordar com o que têm dito: sim, a culpa é toda minha. Posso não ser julgada em tribunal, mas eu sou a verdadeira julgada em praça pública - e com toda a razão. Eu estava a pedi-las.

Eu bem que podia argumentar que fui agarrada, completamente desprevenida, por ele à saída do bar, que debati-me com todas as forças para que ele me soltasse (esforço inútil já que ele é era bem maior do que eu, conseguindo facilmente dominar-me, mas ainda assim lutando até ao fim), que lhe implorei que parasse e disse repetidamente "Não", que durante todo este incidente fui brutalmente agredida e que no fim, atirou-me para fora do carro como lixo, que além das marcas da agressão sexual fiquei toda cheia de hematomas dos murros e estaladas que ele me deu. Mas isso são desculpas de mau pagador. Tal como dizem por aí, eu estava a pedi-las. 

Toda a gente sabe que se uma mulher sai à noite é para se exibir, para que os machos a rodeiem e que pelo menos um deles lhe salte em cima. Então, se ela veste uma saia curta, como eu vestia nessa noite, mais vale também andar com um cartaz a dizer "COMAM-ME!". Isso de uma mulher querer, com essa saída, apenas uma noite de diversão e descontraída com as amigas, ou de querer usar saia curta simplesmente para se sentir bonita, é tudo conversa fiada. E quando uma mulher diz não, na verdade ela está a dizer sim, a fazer-se difícil e a adiar o óbvio. Logo, como eu estava de saia curta e ainda por cima um decote que apesar de não muito grande, não subia até ao queixo, eu estava a pedi-las. 

Toda a gente sabe que os homens são uns coitados, têm a carne fraca, não se controlam. Pelos vistos aquilo que eu li sobre a teoria da evolução são umas balelas. É que não podem ver uma mulher a mostrar um pouco de carne, que ficam doidos, incapazes de controlar os seus impulsos, cegos a tudo mais. Mas a culpa não é deles, coitadinhos. É de quem lhes acena com tanta carne pronta a ser devorada e depois faz-lhes negaças. E se eles apanham uma a jeito, que mais pode uma mulher fazer senão ceder e deixar que eles saciem as vontades? Quando ele olhou por mim, tão provocante e lasciva, que podia ele fazer senão fazer-se a mim à bruta? Eu estava a pedi-las.

Toda a gente sabe que uns bons pais não deixam as filhas fazer essas figuras. Ao deixarem-me vestir aquilo que bem me apetecer, sair para onde eu quiser e já agora, pensar por mim própria, está visto que os meus pais não souberam educar-me. Ou então não sabiam a filha desnaturada que tinham em casa. Com uma educação tão defeituosa, eu estava a pedi-las.

Toda a gente sabe que uma boa rapariga não gosta de sexo. Mantém-se pura e casta até ao casamento, é imune a pensamentos lascivos. As outras, as más raparigas, oferecem-se a cada um sempre que podem. Seduzem os coitadinhos dos homens com a sua armadilha inescapável de luxúria. Desviam bons rapazes, são poços de infecções e sarilhos. São umas desvairadas e só servem de receptáculos para as satisfações momentâneas dos machos. Não há meio-termo entre umas e outras. Não foi por amor ou por desejo de intimidade e afecto que tive sexo ao longo da minha vida, foi porque sou uma tarada ninfomaníaca que não se dá ao respeito. Bem que podia dizer que foi só durante as três relações de namoro, todas elas relativamente longas e apenas quando a relação já estava minimamente sólida, mas toda a gente, que sabe mais da minha vida do que eu própria, afirma que foram mais que isso, que sempre me viram agarrada a este e aqueloutro. Logo, eu estava a pedi-las.    

Toda a gente sabe que eu afinal queria e como não foi como pretendia, estou agora a fazer-me de vítima. Aliás, ele até nem fez nada, eu é que me fiz a ele. Toda a gente o conhece, é tão bom rapaz, de boas famílias, seria lá ele capaz de uma barbaridade dessas. Só posso ser eu que estou ressabiada por ele não me ter dado trela e agora resolvi estragar a vida ao rapaz, coitado. Se a minha vida já está estragada, se vou ter de carregar as marcas exteriores e interiores daquilo que sofri, se eu vou passar o resto da vida com medo de tudo e de todos, pouco importa. Eu estava a pedi-las.  

Dadas as provas das minhas marcas e do ADN dele, as testemunhas que o viram a arrastar-me à força ou a ser cuspida para fora do carro dele mais morta que viva e as fracas justificações dele, em princípio ele será condenado pela justiça. Mas mesmo que se faça justiça em tribunal, não consigo sentir que a verdadeira justiça será feita. Não enquanto eu me sentir como a verdadeira condenada e culpada. Não enquanto pensarem que, mesmo contra as evidências mais evidentes, eu estava a pedi-las.      

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Sem Segredo

Vanessa

Perguntas tu e pergunta muita gente qual é o meu segredo para manter um relação tão apaixonada com o Sérgio ao fim de dez anos de casamento, tendo os dois trabalhos tão exigentes e dois filhos que ainda requerem tanto da nossa atenção. A verdade é que eu não sei. A sério.
É que são muitas as vezes que caímos redondos na cama sem vontade para mais nada senão dormir. Tantas vezes que andamos num turbilhão de preocupações, ele é um dos miúdos que adoece, ele é algum pagamento que ficou em atraso, ele é a roupa que fica por passar, ele é um risco num dos carros e parece que andamos sempre nisto de problemas em problemas que nem dá para trocarmos meia dúzia de palavras como deve ser.
Para além disso, há aqueles momentos de tédio e de tensão, em que um de nós diz ou faz algo que deixa o outro irritado sem que não se possa dizer nada até lhe passar o amuo. Ou então acontece nos apetece estar cada um na esfera pessoal sem ter o outro por perto, ou pura e simplesmente não nos apetece rigorosamente nada.
E depois é como alguém disse, "viver é escolher um de mil caminhos e pensar como seriam os outros 999". Como sabes, pensei muito no César nas semanas a seguir ao nosso jantar de reunião de turma e nem sempre da forma mais ingénua. Tal como sei que o Sérgio repara e aprecia as atenções de outras mulheres no seu dia-a-dia e que já terá tido os seus pensamentos libidinosos envolvendo outras mulheres além de mim. Ou simplesmente, ocorre-nos pensar se fizemos as melhores escolhas possíveis. Por muita convicção e determinação que uma pessoa tenha em se comprometer com alguém para, pressupõe-se, o resto da vida, a ideia de que essa mesma pessoa ficará ao nosso lado até que a morte nos separe é assustadora. Até porque ao longo do tempo, vamos mudando e transformando. Eu já não sou aquela que há dez anos marchou até ao altar da igreja, tal como o Sérgio de então é bastante diferente do Sérgio de agora. 
Gosto de pensar que são as pequeninas coisas que engrandecem e mantêm a nossa união viva e forte ao fim deste tempo todo: os breves períodos de tranquilidade entre fases turbulentas, as palavras certas ditas nos momentos certos, os pequenos gestos que escondem grande valor, os inesperados ataques de desejo que surgem do nada, os rasgos de humor e ternura dos miúdos que nos enche de orgulho, os subtis actos de compreensão.
Mas pode ser que temos é muita sorte e ainda não houve nada que tenha feito ruir os alicerces daquilo que construímos juntos. Infelizmente a vida é cheia de terramotos que abalam até as mais sólidas das fundações e de um momento para o outro, tudo o que acreditamos e temos como seguro desvanece (como aconteceu com a Carina). 
Eu sei bem porque perguntas isso. Já passou a fase de lua-de-mel com o Daniel, onde andavas numa de comédia romântica com laivos de filme erótico. Os pequenos desencantos dele já não se deixam camuflar pelos seus grandes encantos, e mesmo que isso não te faça gostar menos dele, também sabes que é algo que vais ter de lidar. E perguntas-te a ti mesma, se vale a pena dar passos em frente, arriscando a ficares sem chão, enquanto te apercebes que já não dá para recuar para os trilhos que antes pisavas com toda a segurança. 
Tantas perguntas sem resposta, mas não possa ser eu a dá-las. Tomara eu saber a resposta para as minhas. Talvez o segredo seja não haver segredo. Talvez as coisas sejam aquilo que temos à frente, sem nenhum truque escondido e tudo o que achamos complicado afinal é do mais simples que há. Não acontece tanta vez andarmos às voltas à procura de algo que sempre esteve no ponto de partida?
Por isso, se não sabes por onde caminhar, deixa o mundo girar para veres onde ele te transporta.

Joana      
 

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Scrooge Apaixonado

Raios partam o Natal. Como é que possível que algo que eu adorava em miúdo pareça-me tão insuportável aos 30 anos? É que eu não tenho pachorra para tanto Jingle Bells, tanta decoração foleira, tanto puto ranhoso a pedinchar brinquedos que provavelmente não vão ligar nenhuma depois, tanta comida para empanturrar, tantas mensagens vazias e hipócritas. Será que as coisas eram mesmo mais simples quando eu era criança ou será que fiquei mais cínico com idade?

Mas pelo menos para minha mãe, faço um esforço nesta noite de Consoada. Para ela, qualquer ocasião para reunir a família toda é importante, ainda para mais desde que o meu pai morreu há três anos. Por isso, faço o possível para pôr cara alegre e entrar no espírito. Nem que seja pelo faz-de-conta. Por exemplo, faço de conta que sempre adorei as frutas cristalizadas no bolo-rei.
Faço de conta que não ouvi o meu cunhado num canto a falar ao telemóvel com uma tal de Isabel que provavelmente anda enrolado e a minha irmã faz de conta que o marido dela não pula a cerca. Faço de conta de que não acho que ele é um estupor por enganá-la quando não tem nenhuma razão de queixa dela.
Faço de conta que a minha cunhada não se tornou uma mulher seca e chata e que a essa sim, acharia algo justificável uma ou outra facadinha que, felizmente ou não, o meu irmão não se atreve a dar. Faço de conta que os meus sobrinhos ainda não passaram a fase de estarem apenas um pouco irrequietos e já se aproximam perigosamente da zona do insuportável. Até a Carolina, com quem sempre tive uma particular proximidade e normalmente tão sossegada, anda feita uma barata tonta a correr de um lado para o outro com o irmão e os primos. Deve ser do sugar rush das azevias e dos chocolates.Faço de conta que a minha mãe não sente imenso a falta do meu pai em todos os momentos, especialmente nestes. 
E sobretudo faço de conta que eu não ando de cinco em cinco minutos a ver se tu enviaste-me uma mensagem para o telemóvel. Bem sei que não fizemos planos nenhuns, que cada um já tinha planeado passar a Consoada com a respectiva família, que ainda não chamamos namoro àquilo que se passa entre nós. Mas volta e meia dou comigo a pensar em ti, em como o meu Natal ideal era ter-te ao meu lado e o resto que se lixe. Mas no meu telemóvel só chegam mensagens formatadas a desejar Feliz Natal e tudo o mais.

Até que de repente ouço o toque de mensagem. "Feliz Natal. Quando puderes, vem cá..." Seis palavrinhas que, qual milagre de Natal, mudam o meu estado de espírito. Faço tudo para não o mostrar mas o olhar sorridente que a minha mãe me lança mal eu te envio a resposta demonstra que ela reparou, como sempre reparou em tudo. 
E de repente, tudo muda. Já sou todo sorrisos. Dou um beijo à minha irmã, imito o Chewbacca para os miúdos, alinho num ginjinha com o meu irmão e o meu cunhado, até arranco um hesitante sorriso à minha cunhada. Quando chega a troca de prendas, vou agradecendo os packs de meias, os frascos do after-shave e o vale do iTunes. Sentada ao meu colo, a Carolina desembrulha a caixinha de jóias da Violetta que ela me pediu e rodeia-me o pescoço para me dar um beijinho repenicado. Se ainda existe algum stress e tensão, já não o sinto. 

Quando conduzo pela noite fria, até acho piada às iluminações da cidade, as mesmas desde sei lá quanto tempo. Subo as escadas do teu prédio como um miúdo ansioso por abrir as prendas. Quando me abres a porta e recebes-me com aquele sorriso que me enfeitiçou, sei que ainda é possível inventar um Natal simples, onde basta ter aquela de quem se gosta ao nosso lado, e o cinismo e o faz-de-conta ficam lá fora, no frio invernal. Só mesmo tu para, com um simples SMS, trazeres o espírito de Natal a este Scrooge empedernido que se apaixonou por ti.       

sábado, 14 de novembro de 2015

K2

Nunca o dissemos abertamente, mas tanto eu como o Fábio sempre achámos um alívio não sermos gémeos idênticos. Já bastava termos que partilhar tanta coisa, mesmo ainda antes de virmos ao mundo, que seria exasperante para nós ter que ver a nossa cara reflectida no outro e sermos vistos como se um fosse o original e outro a cópia, ou pior ainda, como um só. Como naquela anedota em que um pai mostrava uma foto só de um dos filhos gémeos porque e não via porque mostrar também o outro sendo eles iguais. Felizmente a armadilha da genética foi-nos piedosa, apenas com os traços fisionómicos suficientes para que se visse que éramos irmãos um do outro e filhos dos nossos pais. E como se quiséssemos provar desde o parto que viemos juntos mas não misturados, fizemos sempre por reclamar a nossa individualidade. Como tal, era fácil para toda a gente saber desde muito cedo quem era o Bruno e quem era o Fábio. E tem sido assim ao longos dos vinte e sete anos que já vivemos. 

O Fábio foi sempre a alma da festa, a voz da vontade, o conversador inato enquanto eu sempre preferi-me perder na profundeza dos meus pensamentos ou no conforto dos números. Claro que tivemos essas nossas brigas, mas não foram mais de que as de quaisquer outros irmãos. Na maioria das vezes a nossa divergência de personalidades acabava por ser bastante harmoniosa e complementar. Que o diga o nosso pai que percebeu que com o meu irmão a dar conversa aos clientes e eu nos bastidores a ver se as letras e os números batem certo, o negócio de família estava bem entregue nas nossas mãos.  

Quando o Fábio desafiou-me para a canoagem, o desporto em que ele assentou depois de tentar muitos outros, aceitei algo contrariado. Mas não tardei a perceber que estando no meio da natureza, em harmonia com os elementos, era o desporto ideal para a minha natureza tão filosófica. Na cadência da pagaia, na fluência das águas, nas asas do vento, os meus esforços acabavam por sair-me com uma inesperada facilidade, por vezes até superando o Fábio. 
Mas foi quando nos propuseram juntar forças para o K2, é que os resultados começaram mesmo a aparecer a um ritmo surpreendente até para nós. Tudo bem que estamos longe de ser o Emanuel Silva e o Fernando Pimenta, mas não é a glória olímpica que nos move, mas sim a alegria do esforço e da auto-superação, o contacto da natureza e o reforçar daquele sensação de, por entre as nossas muitas diferenças, sermos desde o primeiro momento companheiros nessa viagem que é a vida. Apesar de apenas muito de vez em quando sentirmos aquela telepatia que dizem que é característica dos gémeos, existe entre nós uma compreensão e uma aceitação mútua que se expressa para além das palavras. É um laço que nos une foi sempre mais forte e mais nítido do que qualquer outra coisa que possamos sentir.  
    

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Lua Nova

Eis-me aqui, parada junto ao semáforo, tamborilando os dedos no volante, à espera que acenda a luz verde. São duas da manhã, a rua está deserta, circulo sozinha pela cidade. Então vem-me à cabeça um cenário de transgressão: e se eu cruzasse este sinal vermelho, protegida pela solidão desta rua? Como estamos na Lua Nova, nem sequer a Lua seria testemunha. E aquelas estrelas que aproveitam a ausência de luar para povilhar o seu brilho no firmamento estão longe demais para me avistarem cá de baixo. A minha mão desce até ao manípulo das mudanças, o meu pé já sente a urgência de carregar no acelerador.
A luz verde acaba por surgir no preciso instante antes de ceder ao meu impulso final. Em vez de um arranque vertiginoso sob o chiar dos pneus e o zunido do motor, avanço sem pressa pela via, seguindo o meu caminho.

Creio que a primeira vez que senti este desejo transgressor quando tinha cinco anos e imaginava-me a empurrar o gato malhado da minha avó que dormia descansado num novelo de si próprio num degrau das escadas. Quase que podia sentir as minhas mãozinhas sobre o seu volumoso pêlo a pressioná-lo para fora do degrau, o bichano a despertar estremunhado num grito assustado e a fugir num voo picado escada abaixo. Depois seguiram-se outros cenários realizados na minha mente, onde calcava um relvado junto do sinal “Não pise a relva”, largava um grito em plena biblioteca, desatava-me a rir no meio de uma missa, puxava o cabelo de uma antipática colega da escola, pegava num sabonete no supermercado e atirava-o contra a prateleira das lacas para o cabelo e por aí fora. Claro que nunca fiz nada disso. Primeiro porque faltava-me sempre a coragem para pisar de vez o risco, e depois porque a imaginação do acto já me dava pica suficiente, provavelmente mais do que obteria com a realização. Quando uma vez confessei isto à minha mãe, ela concluiu que era uma partida do meu subconsciente. Seria precisamente por eu ser tão bem comportada que me sentia fascinada com maus comportamentos. E no fim, ela sossegou-me, afirmando:
- É normal ter vontade de ser mau. Fazer maldades é que já não é normal.

De facto fui sempre uma menina bem comportada. Obedecia sem grandes protestos às ordens dos meus pais, mantinha o meu quarto arrumado, era disciplinada e atenta nas escolas, nunca chegava das saídas à noite depois da hora combinada, nunca bebi álcool para além da conta, nem sequer nunca fumei um cigarro inteiro. Mas nesse caso, também não tenho interesse nisso, detesto o cheiro a tabaco. Até acho pior que o cheiro da ganza. E aliás, a única vez que fumei ganza foi em Amesterdão, pelo que posso seguramente afirmar nunca fiz nada de ilegal.
Vistas bem as coisas, a minha mãe tinha razão. Agradava-me mais a ideia de me portar mal do que propriamente o acto. E qualquer pedrada de adrenalina que pudesse obter se o fizesse não compensaria certamente as consequências que teria de enfrentar.
No entanto, agora enquanto conduzo pelas ruas desta cidade, não consigo deixar de pensar que pisei o risco e que tenho de me aguentar à bronca. A bem dizer, não houve nenhum risco para pisar. Foi sexo consentido entre dois adultos oficialmente desimpedidos. Mas a frieza das palavras não se encontra no labirinto dos sentimentos. E o que sinto é que traí o Fernando, ao voltar-me a entregar de novo ao Gustavo.

O Gustavo continuava igual a si próprio: sedutor, descontraído, convidativo, aplicado. Desta vez tinha regressado a Portugal como membro da banda que acompanha uma cantora de jazz holandesa na sua digressão europeia e claro que não perdeu a oportunidade de voltar a ligar-me, para de mais uma vez nos encontrarmos e matarmos saudades dos corpos um do outro, como temos feito a espaços durante o último ano e meio. Lançava-me de novo o seu canto de sereio, na sua voz grave e calma e mais uma vez atordoava-me os sentidos e ateava o fogo dos meus desejos de mulher, deixando-me incapaz de dizer não.
Porém, desta vez já havia o Fernando e o meu sim não foi tão imediato. Fui enganando uma eventual culpa com a racionalização. Eu ainda não namoro com o Fernando. Quando muito, andamos a ver se andamos a namorar. Se dependesse só dele, já teríamos relação oficial mas ele tem sabido esperar que eu resolva o puzzle da minha cabeça e que tome uma atitude, ciente que já não é para mim apenas um amigo e certo que não tardará a sair da minha friendzone para o nível seguinte.

Como sempre, bastou uma porta fechada e estarmos sozinhos entre quatro paredes para que o Gustavo e eu nos agarrássemos, como se entre nós irradiassem todas as ondas magnéticas reconhecidas pela Física. As roupas caíram à pressa, as peles sedentas de contacto, as bocas sequiosas do licor salival, as mãos esvoaçando por entre as curvas e contracurvas dos músculos, os sexos roçando-se em fúria.
Como sempre, o Gustavo foi magnífico no seu desempenho, com o seu toque a deixar cada centímetro da mulher que sou em brasa. A responder às minhas ânsias, a celebrar-me com beijos, a dominar-me com o seu belo corpo, a impor-me o seu ritmo vertiginoso, a rasgar-me bem fundo, a garantir-me que os orgasmos seriam alucinantes.
Como sempre, respondi na mesma forma, deixando-o desvairado para além da razão, sem outro pensamento senão em possuir-me, inebriado no meu cheiro e sabor de mulher. Provocando-o com os meus dentes cerrados e as minhas unhas afiadas. Zunindo-o com os meus gemidos de prazer rumo ao clímax. Movendo-me para que ele sentisse todos os estremecimentos do meu ventre. Desdobrando-me entre a amante exigente e a amante submissa, obrigando-o a efectuar a soma das partes.
Como sempre, ele foi perfeito, o sexo foi além de fantástico.

Só que desta vez, assim que a euforia desapareceu no éter da noite pelo céu da Lua Nova, e os corpos saboreavam a doce trégua depois da violência do prazer, tudo ficou diferente. A saudade que eu tinha deste meu amante e do seu corpo foram aniquiladas por outra saudade.
Uma saudade que vinha agora do coração e que me levava a outro corpo, a outro amante. A um outro amado.
- O que tens, Luísa? – perguntou o Gustavo.
Tentei dizer alguma coisa mas só me apetecia chorar e não consegui evitar que uma lágrima se condensasse no meu rosto. Com a sua habitual perspicácia, percebeu que eu não estava bem mas nada disse. Passou apenas a mão pela face, limpando-me a lágrima. Depois pegou no trompete e, ainda nu, tocou-me um excerto de uma música que tinha ouvido antes no concerto. Recordei a canção que a cantora cantou no concerto.

Whisper to the moon, my heart pleads for you.

Sentei-me na cama, desfiz o nó da garganta.
- O Fernando ama-me.
Ele parou de tocar e sorriu para mim.
- O Fernando tem bom gosto.


Assim que senti a brisa da noite, olhei para o céu sem lua, mas cheio de estrelas. De certa maneira, creio que amei o Gustavo. Não pela atracção animal que ele me inspirou, pelos prazeres que ele me fez descobrir, nem sequer pelo bom entendimento que soubemos cultivar fora da insanidade carnal. Amei-o com a ternura de alguém que foi importante para nós e que nos pintou um novo matiz da vida. No caso dele, talvez a luz branca do luar. Mas a rotação da vida é constante e só agora percebi que estava agora na órbita de um novo ciclo. Peguei no meu carro e voei no reflexo celestial do alcatrão. Se eu pisei algum risco, só tenho é que seguir em frente.